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Diário de um Universitário


Nem tudo parece ser o que é.

Hoje eu fui no antigo pré-vestibular comunitário onde eu fiz o preparatório para ingressar no curso de Ciências Sociais. Eu recebi um convite do antigo coordenador do curso que falou que um grupo de cineastas que estavam interessados em filmar um documentário com alunos egressos pelo programa de ações afirmativas.

Eu achei curioso no começo, mas, depois que soube do que se tratava não gostei muito da idéia, porque, a orientação que está sendo feita o documentário (pelo o que me foi explicado) quer explorar uma vertente que não tem absolutamente nada a ver com a vivência que tenho tido na Universidade e venho descrevendo nesses dois anos aqui no blog.

A idéia do documentário possui um enfoque "racial" em relação a negros que ocupam cargos políticos, empresarial, do quilombola e do estudante negro que ingressou na Universidade.

Eu fui a uma reunião hoje, e eu relatei que a situação é muito mais complexa e de que não está fundamentada somente num efoque etnico como seus idealizadores acreditam. Quando eu fiz meu relato, notei um tom desdenhoso quanto a  minha experiência por parte da equipe que me escutava em relação a conversa e no sentido de não se enquadrar no que eles possuem em mente quanto a orientação que o roteiro do documentário deve ter. Tanto que o rapaz que estava lá quis terminar a reunião rápido e se antecipou anunciá-la enquanto estavamos conversando e relatando nossa experiência. Ele chegou a sair de sala algumas vezes. Até parece que eles queriam escutar um discurso vitimista. É aquela coisa: "Se a mensagem não lhe agrada, não atire no mensageiro".

Mas, o que eu posso fazer? É a realidade, não posso dizer algo diferente exceto aquele que vivo no meu dia-a-dia; que descrevo no meu blog e que possui um enfoque voltado a estrutura da Universidade (a estrutura corporativista propriamente).

De uns tempos para cá muitas pessoas tem valorizado demais a questão de "raça" (eu disse "raça"? Quem tem "raça" é cachorro),  é uma questão "importante", mas, por favor, nem tudo gira em razão disso.

Nesses dois anos conheci pessoas maravilhosas, muitas idéias e experiências em relação ao "mundo" que estamos inseridos estão sendo construídas lá.

A experiência que foi construída com cada um dos meus colegas (independente de cor é claro) é algo importante também. Miscigenação não é algo que se faz somente na cama, é a troca política, cultural e social dentro de uma sociedade plural, e isso significa bastante para mim. Isso é o que faz a diferença de estar dentro da Universidade apesar de suas contradições como venho descrevendo ao longo desses dois anos.

Eu acho que participar desse documentário, só me faria trair toda a opinião, palavras, frases e orações que tenho escrito e expressado ao longo desses dois anos no meu blog. O que é bastante significativo para mim. Pois, caso o contrário não estaria escrevendo e seria um baú guardando tudo comigo mesmo: minhas alegrias, frustrações, incertezas, tristezas, dúvidas e por ai vai. Ainda mais que eu soube que o documentário vai ter a participação de um cineasta americano, hum. Já se vê para onde a coisa vai descambar quando tem dedo de "Ianque" no meio. Vai querer colocar uma visão que não tem nada a ver com a nossa realidade, quando eu digo a "nossa realidade" é a realidade do Brasil.

Eu conversei com eles, e eu coloquei que a questão é muito mais profunda do que propriamente essa coisa dicotomica de "raça" e etnia, quando há um todo que envolve privilégios no meio acadêmico, hierarquização do conhecimento (aluno tabula rasa e professor portador unilateral do conhecimento) entre outras aberrações que vejo e relato no meu blog e disse nesse encontro que tivemos hoje.

De fato nem tudo parece ser o que é, pois, se as coisas fossem assim, o mundo seria bastante chato, né?

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Rodrigo às 22h50
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